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Rudesindo Soutelo
O Bardo na Brêtema Não há vida onde não há luta. Todo conceito implica um desconceito. Toda acção gera uma reacção.
Uma leitora atenta e extraordinária guitarrista, Isabel Rei, formulou-me a questão da componente emocional no processo criativo. Afirmo eu que o compositor é um manipulador de emoções, um modificador temporal dos estados de ânimo do ouvinte, um iludente evocador de realidades virtuais. Todos experimentamos alguma vez a mudança de ambiente que se produz num espaço em total silêncio ao soar uma música ou mesmo um simples tom. Os nossos sentidos abrem-se a uma outra percepção, como duma onda envolvente que subtilmente nos desloca para um novo cenário. Também temos experimentado como a mesma música nos emociona de modo diferente em circunstâncias distintas ou mesmo que algum intérprete nos deixa indiferentes com músicas que outros intérpretes nos fazem vibrar. Parece óbvio que não pode transmitir emoções quem não se emociona mas como e quem cria essas emoções? O compositor teria de ser o primeiro a reagir ao estímulo da sua própria obra durante a criação, nessa luta por dar à vida "a visão mágica do mundo", segundo a tese de Jean-Paul Sartre. A emotividade é um complemento da função racional do indivíduo e mesmo um elemento essencial do carácter segundo o filósofo e psicólogo francês René Le Senne, mas as emoções são de breve estadia ainda que perdure a sua lembrança na lagoa da memória. Existe uma industria das emoções muito potente a provocar fortes reacções fisiológicas que interagem com as funções cognitivas e reforçam os preconceitos do bom e o mau, base duma sociedade acrítica onde tudo está já dito e os indivíduos passaram de ser cidadãos a meros consumidores num processo depreciativo que os leva a transformarem-se em simples mercadoria. A isto chamo eu emoções de baixo-ventre porque não desenvolvem o pensamento senão tão-só essa zona das paixões fisiologicamente primárias. Na Feira da Música de Frankfurt, a mais importante a nível mundial, havia este ano uns 2.400 expositores. As editoras catalãs estavam lá assistidas pelo Instituto Catalã de Industrias Culturais que organizou na cidade três concertos de compositores catalães com intérpretes também da Catalunha. O Instituto Valenciano da Música acompanhava a Editorial Piles e planificava a sua presença na Feira da Música de Shanghai (China). Nesses apoios institucionais há uma evidente componente emocional ao serviço duma estratégia de internacionalização da alta cultura própria como base do desenvolvimento económico interno, porque sem cultura a economia não se passa de especulação, caciquismo ou corrupção, e sem uma alta cultura própria também não alcançaremos uma alta economia própria. Em evidente "desamparo emocional" estava lá um único expositor da indústria musical galega a fazer avançar o Corpus Musicum Gallaeciae. O que verdadeiramente faz vibrar a gerações de ouvintes duma obra de arte não é precisamente a componente emocional senão a sólida construção da obra que permite a cada um de nós tirar à luz as nossas mais profundas emoções. Existem técnicas para induzir determinadas emoções recorrendo à lagoa da memória e aos estereótipos culturais mas isso reduz a criação a fórmulas carentes de originalidade e tendentes à mediocridade, como assim acontece às músicas que depois dum rápido êxito são esquecidas ou nem sequer ultrapassam uma geração. A originalidade é o factor de imprevisibilidade (grau de acontecimentos inesperados) presentes na lógica da comunicação, o qual desencadeia as emoções profundas. Pelo contrário a mediocridade é a reiteração banal do discurso previsível na procura de suscitar a mesma sensação quando se dá o mesmo estímulo mas, como não reagimos directamente ao estímulo senão à consciência que temos dele, o resultado é sempre uma incógnita. Na obra de arte a imprevisibilidade é permanente e sempre descobriremos uma emoção nova em cada aproximação a ela. Na obra medíocre a sensação de tédio vai-nos envolvendo em cada novo contacto e as emoções, se as houver, vão-se degradando até o nível das baixas paixões. Certamente a mediocridade é a característica espiritual desta época, controla os fios do poder e nos exime da responsabilidade de pensar. Um medíocre é aquele que nos oculta informação e se evade de apresentar-nos aos seus amigos porque ao carecer de ideias próprias estaria revelando as suas fontes. O medíocre é um namorado que vai tornando em falso juramento as sucessivas juras de amor eterno. O medíocre parece ser feliz mas não percebe quão estupidamente vai consumindo a sua vida e, se for preciso, apelará à inflexível letra do regulamento ou catecismo para defender o seu ridículo poder. A originalidade é criativa e diversa. A mediocridade é global, alienadora e destrutiva. A componente emocional não deve pois ser um elemento construtivo senão o resultado duma construção tecnicamente perfeita onde a imprevisível luta intrínseca da obra desencadeie vida emocional própria e diferenciada em cada um dos indivíduos que se relacionam com ela. Se a indústria musical galega não está na Frankfurt Musikmesse, por muito discurso emocional que façamos, é porque não existe e isso não se remedeia com subsídios nem romarias senão criando uma forte demanda interna -incluindo no interno o mercado natural da lusofonia- e promovendo a sua difusão no exterior. Há uma nova burguesia de esquerdas que está a invocar emocionalmente Sartre para justificar uma ética politicamente correcta e até a sua própria mediocridade, mas "a visão mágica do mundo", à qual pertence a emotividade, continua a ser património da imprevisibilidade dos criadores originais porque não há reacção sem estímulo, conceito sem ideia, nem luta sem existência. Na sequência, os compositores da música culta, erudita ou clássica somos uns manipuladores de emoções. © 2007 by Rudesindo Soutelo www.soutelo.eu
Nota: Para reproduzir este e qualquer outro artigo de Rudesindo Soutelo é preciso uma autorização escrita da editora Arte Tripharia (www.artetripharia.eu). Os 93 artigos publicados desde Setembro 2003 a Julho 2005 baixo o epígrafe de O Bardo na Brêtema estão editados por Arte Tripharia no Corpus Musicum Gallaeciae. |