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Venres, 21 de Setembro do 2007

Rudesindo Soutelo

O Bardo na Brêtema 

A premissa básica duma obra de arte é a transcendência, sem isso pode não deixar de ser uma obra mas não é arte. O tempo é o melhor crítico pois os divertimentos geracionais mudam e tão só permanece a essência, o pensamento abstracto da sociedade, o legado cultural.

Para transcender é preciso criar algo novo e original, mas na medida justa, nem demais -que desorienta o perceptor por perda de referentes; nem de menos -que aborrece por ser tudo já conhecido. O factor imprevisibilidade que o autor introduz na sua obra é o que determina a quantidade e qualidade das emoções que vai suscitar nos indivíduos que com ela contactam. É evidente que há públicos com níveis distintos de exigência conforme ao grau de formação e experiência, assim como também há autores que criam em função do público para obter um êxito rápido, mas as modas dos grupos sociais são mesmo isso, mudam rapidamente e, o êxito, desvanece-se.

A genialidade de Mozart, o que nos faz sentir a experiência de sermos criadores, consiste no uso adequado de acontecimentos inesperados em cada momento da sua música, gerando uma lógica emocionalmente criativa. Ainda que hoje a música de Mozart nos pareça algo natural, lembremos que a sociedade em que viveu aplaudia as mediocridades sonoras dum compositor intranscendente e intrigante como Salieri, e quando foi enterrado na fossa comum do cemitério de Salzburgo tão só o seu cão estava presente. A nossa sociedade continua a enaltecer medíocres e intrigantes.

Ainda não existe um estudo científico dedicado ao factor imprevisibilidade dos grandes génios criadores, como também não se conhece a utilidade artística dos críticos, musicólogos e teóricos no devir criativo para além duma ilusória alquimia. Isso pois não é ensinado nos Conservatórios nem nas Universidades e por essa razão poucos criadores se criam nas suas aulas. Deixa-se à intuição pessoal essa procura da essência, e ainda se reveste do halo divino da inspiração quando não é mais do que transpiração pelo trabalho intelectual necessário para encontrar o factor adequado de imprevisibilidade, suscitador de emoções e reflexões.

Por trás de qualquer obra há sempre um conceito ou ideia geradora que só é preciso enunciar quando a realização é tão medíocre que a obra em si não funciona e não comunica. Cada perceptor da obra vai extrair o seu próprio conceito e, provavelmente, nenhum coincidirá com a ideia original do autor, porque se isso acontecera e apenas tivesse uma única interpretação então seria uma obra desnecessária, uma mediocridade dum outro Salieri intranscendente, por não contribuir para tornar criativa a mente do perceptor. Uma professora de piano contou-me a surpresa que lhe causou o comentário espontâneo dum aluno de 8 anos, habituado à música culta, que interpretou umas peças infantis em presença do compositor: "Nesta música não se passa nada e eu aborreço-me". De certo o tal autor, Antón García Abril, mesmo sendo muito famoso pela composição de bandas sonoras, na sua música tudo é previsível e intranscendente.

Numa entrevista ao jornal La Voz de Galicia da Corunha, o passado dia 14 de Julho, o cantor brasileiro Carlinhos Brown reconhece "agora a música é uma coisa banal, todo o mundo pode fazer. Não sei se chegou ao final o ciclo da música no mundo ou se o mundo já construiu um repertório, porque as coisas repetem-se todo o tempo". As letras podem ser muito poéticas e até socialmente comprometidas mas as suas músicas, como já disse referindo-me a Gilberto Gil e em geral a quase toda a música ligeira e popular -não assim a música tradicional- são muito simplórias e previsíveis. Nada novo acontece nelas e não porque a fonte dos sons tenha secado, senão porque criar algo original é muito cansativo e, a maioria, só consegue repetir e repetir-se.

Walter Benjamin, no ensaio "A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica" (1936), explicava como a perda da aura do original e a reprodutibilidade da obra de arte favoreciam a democratização da cultura -politização da estética- mas também a manipulação das massas -estetização da política. A estética do capitalismo líquido ou financeiro, também chamada pós-moderna, impõe um ultra-consumismo a escala global baseado no tráfico massivo de serviços e bens abstractos como a informação e a especulação. Isto reflecte-se na produção artística e obras existem onde a ideia -muitas vezes uma vacuidade- é mais importante do que a realização. Chamam a isso arte conceptual e exprime uma realidade social efémera e intangível que banaliza até a própria mediocridade. Embora não sejam assim designadas, as melhores peças de arte conceptual são os discursos políticos, vazios de tudo conteúdo e portanto só realizáveis no seu próprio conceito desconceitualizado. É um modelo que se esgota a si mesmo na própria ideia como acontece com a famosa obra do compositor usamericano John Cage, 4' 33" (1952), onde o intérprete permanece durante esse tempo imóvel, imutável e em absoluto silêncio para que o público escute o barulho que há nesse silêncio. Quando a ideia é mais importante do que a sua realização, uma vez expressa, não dá azo a interpretações já que o único conceito válido é o do autor, e a obra se desvanece sem suscitar o mais mínimo lampejo de criatividade nos perceptores, causando apenas uma recepcão submissa da mensagem doutrinal, que nos leva ao pensamento único da globalização ainda que muitos desses autores jurem e abjurem que as suas ideias não consumadas pretendem criticar ao fascismo amável -estetização da política- que é a consumação ultra-consumista.

Ignorância, auto-estima e estupidez são os novos sinais de identidade desta sociedade intranscendente que abafa a fantasia, a criatividade e o ser. Ignorância, auto-estima e estupidez são também os elementos que se precisam para gerar "solenes vulgaridades" como as vacas de plástico dispostas por toda a cidade de Vigo. A obra de arte conceptual para responder a tanta mediocridade deveria ser uma descomunal bosta de vaca, autêntica, de média consistência e cheiro persistente, na porta do caturra que decidiu tal parvoíce, que resulta ser o parlamentar responsável pela cultura dum determinado partido político.

Temos de nos revoltar contra esta caturrice conceptual e reclamar a diversidade original do imprevisível frente a reaccionária cópia global.

© 2007 by Rudesindo Soutelo

www.soutelo.eu


Nota: Para reproduzir este e qualquer outro artigo de Rudesindo Soutelo é preciso uma autorização escrita da editora Arte Tripharia (www.artetripharia.eu). Os 93 artigos publicados desde Setembro 2003 a Julho 2005 na secção de O Bardo na Brêtema estão publicados no Corpus Musicum Gallaeciae.

 
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